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Internacional

Conheça o programa secreto de Israel que pode ter 90 bombas atômicas

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Apesar de Israel não aceitar que o Irã tenha armas nucleares, diversas fontes ao longo da história indicaram que o Estado judeu mantém um amplo programa nuclear secreto desde a década de 1950. Tal projeto teria desenvolvido pelo menos 90 ogivas atômicas.  

Essa estimativa é da Federação de Cientistas Americanos e da Associação de Controle de Armamentos, ambas dos Estados Unidos (EUA). Porém, há fontes que apontam para um arsenal ainda maior.

Israel nunca reconheceu, nem negou, ter bombas atômicas, mas é o único país do Oriente Médio a não assinar o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP). Por isso, não se submete às inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ligada a ONU, contrariando apelo do Conselho de Segurança da ONU feito em 1981.


09/10/2023, O doutor em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) Robson Valdez acrescentou que, assim como os Acordos de Abraão, os acordos da China no Oriente Médio por meio dos investimentos da chamada Rota da Seda pressionam para uma maior estabilidade política na região, o que o ataque do Hamas acaba por desestabilizar. Foto: Arquivo Pessoal
09/10/2023, O doutor em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) Robson Valdez acrescentou que, assim como os Acordos de Abraão, os acordos da China no Oriente Médio por meio dos investimentos da chamada Rota da Seda pressionam para uma maior estabilidade política na região, o que o ataque do Hamas acaba por desestabilizar. Foto: Arquivo Pessoal

Professor de relações internacionais Robson Valdez, do IDP, critica o apoio incondicional a Israel. Foto: Arquivo pessoal

O professor de história da Universidade de Brasília (UnB) Luiz Alberto Moniz Bandeira, em seu livro A Segunda Guerra Fria, contou que Israel teria começado a construção da sua usina nuclear na cidade de Dimona, ao sul de Jerusalém, “bem antes de 1958”, por meio do projeto Soreq Nuclear Research Center, operado pela Israel Atomic Energy Commission (IAEC).  

A pressão exercida pelas potências ocidentais contra o programa nuclear do Irã contrasta com a ausência de cobrança em relação ao programa nuclear de Israel.

O professor de relações internacionais Robson Valdez, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), ressaltou à Agência Brasil que o apoio incondicional a Israel revela a hipocrisia das potências ocidentais.

“Israel tem um programa nuclear que manipula, instrumentaliza e desenvolve à revelia da AIEA. Há uma abordagem enviesada do direito internacional. Para os inimigos, todo o rigor da Lei internacional e, para os parceiros, como Israel, notório violador do direito internacional, há uma retórica contemporizadora para suas ações ilegais”, disse o especialista.

Primeiros reatores

Os primeiros reatores de Israel teriam sido fornecidos pelos Estados Unidos (EUA), no âmbito do programa “Átomos para a Paz”. Segundo o historiador brasileiro Manoel Bandeira, Israel iniciou a construção das bombas nucleares sem consultar Washington. Já a CIA (Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos) só descobriu o local da produção três anos depois, “se é que antes não o sabia”.  


Brasília (DF), 17/06/2025 - O cientista político com estudos sobre Ásia e o mundo islâmico, Ali Ramos. Foto: Ali Ramos/Arquivo Pessoal
Brasília (DF), 17/06/2025 - O cientista político com estudos sobre Ásia e o mundo islâmico, Ali Ramos. Foto: Ali Ramos/Arquivo Pessoal

O cientista político Ali Ramos questiona o conhecimento dos EUA sobre programa de armamento nuclear de Israel. Foto: Ali Ramos/Arquivo Pessoal

Para o cientista político Ali Ramos, especialista em história da Ásia e do mundo islâmico, é difícil afirmar até que ponto os EUA não tinham conhecimento do programa de armamento nuclear de Israel.

“Os EUA fizeram vista grossa. Temos também o problema, desde sempre, da cooptação das agências de segurança dos EUA pelo lobby israelense. Acredito que a CIA e o FBI [Departamento Federal de Investigação dos EUA] não avisaram ao presidente americano, assim como não avisaram ao presidente Kennedy da situação real da invasão da Baía dos Porcos, em Cuba”, comentou o analista geopolítico.

O historiador Moniz Bandeira, que faleceu em 2017, escreveu que Israel recebeu assistência da Comissão de Energia Atômica da França para construir seu programa nuclear, “que lhe cedeu materiais atômicos e cientistas para colaborarem na construção de reatores”.

Fontes

Entre as diversas fontes que afirmam a existência do programa secreto nuclear de Israel, o pesquisador Moniz Bandeira cita o alto funcionário da CIA Carl Ducketts que, em 1968, disse que Israel “possuía três bombas atômicas, fabricadas com 200 libras de urânio enriquecido, contrabandeadas dos Estados Unidos pelo judeu americano Zalman Shapiro”.  

Outra fonte citada pelo historiador é o agente do Mossad [serviço secreto israelense], Ari Ben-Menashe, que revelou que, entre 1968 e 1973, Israel fabricou 13 bombas atômicas, “cada qual com um poder destrutivo três vezes maior do que as que arrasaram Hiroshima e Nagasaki”.

Em 2008, o ex-presidente dos EUA, Jimmy Carter, revelou que Israel possuía um arsenal da ordem de 150 ogivas nucleares. Outras fontes estimam que o arsenal pode chegar até a 300 bombas atômicas, ainda segundo o livro do Moniz Bandeira.

O programa para construção de bombas nucleares de Israel foi ainda revelado pelo ex-técnico nuclear israelense Mordechai Vanunu, em entrevista ao jornal britânico Sunday Times, em 1986. Por causa dessa revelação, ele foi preso por 18 anos, incluindo 11 anos em solitária.


Israeli nuclear whistleblower Mordechai Vanunu speaks during a meeting with a delegation of activists from the International Campaign to Free Vanunu, in the eastern part of Jerusalem April 18, 2005. Vanunu went on trial on Tuesday accused of violating terms of his release from prison by talking to foreign reporters and trying to visit the West Bank. Vanunu, 50, was released last April after serving an 18-year term for spilling secrets about the Dimona nuclear reactor to a British newspaper. REUTERS/Ammar Awad  OP/VP
Israeli nuclear whistleblower Mordechai Vanunu speaks during a meeting with a delegation of activists from the International Campaign to Free Vanunu, in the eastern part of Jerusalem April 18, 2005. Vanunu went on trial on Tuesday accused of violating terms of his release from prison by talking to foreign reporters and trying to visit the West Bank. Vanunu, 50, was released last April after serving an 18-year term for spilling secrets about the Dimona nuclear reactor to a British newspaper. REUTERS/Ammar Awad  OP/VP

Ex-técnico nuclear israelense Mordechai Vanunu revelou o programa para construção de bombas nucleares de Israel- Foto: REUTERS/Ammar Awad/Proibida reprodução

Vanunu foi condenado por traição e espionagem. Ao ser liberado, em 2004, teve sua liberdade de movimento restrita. Em entrevista à BBC, disse que não se arrependeu de revelar o programa nuclear de armamentos do seu país.  

“O que eu fiz foi informar o mundo sobre o que está acontecendo em segredo. Senti que isso não se tratava de traição. Era sobre informação, era sobre salvar Israel de um novo holocausto”, disse.

Conselho Segurança da ONU

O fato de Israel não submeter o seu programa nuclear ao controle externo contradiz apelo do Conselho de Segurança da ONU de 1981. Logo após Tel Aviv bombardear o reator de Osirak, no Iraque, o órgão máximo da ONU aprovou a resolução 487, que ainda está em vigor.

A norma condenou o ataque de Israel ao Iraque, determinou que o país se abstivesse de atacar novamente reatores nucleares e ressaltou a ilegalidade de atacar usinas com materiais atômicos, o que Israel voltou a fazer agora contra o Irã.

Na mesma resolução, o Conselho de Segurança da ONU apelou para que Israel “coloque urgentemente as suas instalações nucleares sob as salvaguardas da AIEA”, o que nunca foi atendido.

Em 2009, a AIEA aprovou resolução convocando Israel a assinar o TNP e se colocar à disposição da Agência para inspeções, mas o país se negou a aceitar dizendo que “era direito soberano de qualquer Estado decidir se acedia a qualquer tratado”.

O cientista político Ali Ramos destacou que o programa nuclear israelense é o único do mundo que não passa por inspeções da ONU ou da AIEA. “Até os programas nucleares americano, britânico e francês passam por algum controle. O israelense não passa. É o único do mundo que vive nesse limbo, nessa cinzenta”, acrescentou.

Expansão territorial de Israel

O programa nuclear israelense também foi útil para expansão do território do país sobre as terras palestinas. Criado em 1948, Israel assumiu o controle sobre toda a Palestina histórica em 1967, quando expulsou as tropas da Jordânia e do Egito da Cisjordânia e da Faixa de Gaza.

Em 1973, quando tropas do Egito e da Síria atacaram Israel com objetivo de recuperar as terras ocupadas pelos israelenses na guerra de 1967, o general Moshe Dayan, ministro da Defesa, deu alerta nuclear e colocou de prontidão 24 bombardeios B-52 com 13 bombas atômicas que possuía.

“Seu propósito, ao que tudo indica, não era propriamente lançá-las, mas induzir os EUA a tomarem uma atitude mais decisiva com respeito à União Soviética e força-la a conter a Síria e o Egito”, avaliou o professor Moniz Bandeira.



Fonte: Agência Brasil

Internacional

Na Alemanha, Lula defende parceria com Europa na descarbonização

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu neste domingo (19) uma matriz energética limpa em parceria com a Europa e a proteção a empregos com o avanço da inteligência artificial.

Na Alemanha, Lula discursou na abertura da maior feira industrial do mundo, a Hannover Messe. Ele voltou a criticar os efeitos da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, conflito que chamou de “maluquice”. 

Lula disse que o Brasil pode ajudar a União Europeia a diminuir custos de energia e a descarbonizar a indústria. “Para isso, é essencial que as regras do bloco levem em conta a matriz energética limpa utilizada em nossos processos produtivos”, disse Lula, na Hannover Messe.

No discurso, acompanhado pelo chanceler alemão, Friedrich Merz, por representantes dos governos e empresários dos dois países, Lula argumentou que é preciso combater “narrativas falsas” a respeito da sustentabilidade da agricultura brasileira. Ele foi aplaudido pelos presentes em diferentes momentos do discurso.

“Criar barreiras adicionais ao acesso de biocombustíveis é contraproducente, tanto do ponto de vista ambiental quanto do ponto de vista energético”. 

O presidente argumentou que, em 2026, o Brasil coloca em marcha um “robusto programa” que prioriza a economia verde e a indústria 4.0. Por outro lado, ele aproveitou para contextualizar que se trata de um momento crítico na geopolítica global, marcado por paradoxos.

“A inteligência artificial nos torna mais produtivos, mas também é utilizada para selecionar alvos militares sem parâmetros legais ou morais”, criticou.

Defesa do trabalhador 

Sobre o mercado de trabalho, Lula disse que o país tem o menor desemprego da sua história e que defende o fim da escala 6×1, com a redução da jornada de trabalho para garantir dois dias de descanso.

Em relação aos empregos, Lula fez apelo aos empresários e pesquisadores para que, no cenário da evolução das tecnologias de inteligência artificial, contabilizem os impactos para os trabalhadores no mundo.

“Se a inteligência artificial causar o bem que nós queremos, é preciso que nos lembremos que, por trás de cada invenção, tem um ser humano. Se ele não tiver mercado de trabalho, o mundo só tende a piorar”, considerou.

“Maluquice da guerra”

Ainda em seu discurso, Lula assegurou que o Brasil é um dos países menos afetados pela “maluquice da guerra feita com o Irã”. Ele afirmou que o governo tomou medidas internas para minimizar esse impacto diante de um cenário em que o país importa 30% do óleo diesel utilizado.  

O presidente aproveitou para condenar o fato de o mundo estar marcado por desigualdades, mas haver um gasto de US$ 2,7 trilhões em guerras. Em relação a isso, Lula pediu responsabilidade a membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU para buscar caminhos contra essa realidade. O conselho conta com cinco membros permanentes: Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido. 

Efeitos sobre mais vulneráveis

Lula lembrou que, com o conflito no Oriente Médio, ocorrem flutuações no preço do petróleo que encarecem a energia e o transporte. Outra consequência é a escassez de fertilizantes, que afeta a produção agrícola e aumenta a insegurança alimentar.

“São os mais vulneráveis que pagam o preço da inflação dos alimentos. O protecionismo ressurge como resposta falaciosa para problemas econômicos e sociais complexos”. 

Diante desse cenário, Lula apontou que a “paralisia” da Organização Mundial do Comércio (OMC) torna necessário “refundar a organização”. No tema do comércio internacional, o presidente aproveitou para enfatizar a importância do acordo entre o Mercosul e a União Europeia.

“Daqui a menos de duas semanas, entrará em vigor o acordo que cria um mercado de quase 720 milhões de pessoas e um PIB de 22 trilhões de dólares”. 

Lula voltou a ser aplaudido quando lembrou do compromisso brasileiro de, até 2030, chegar a desmatamento zero na Amazônia. “Nos últimos três anos, reduzimos em 50% o desmatamento da Amazônia e em 32% no Cerrado”.

O presidente também destacou que o Brasil prioriza a sustentabilidade no campo dos combustíveis. “Já adotamos mistura de 30% de etanol na gasolina e de 15% no biodiesel. Produzimos biocombustíveis de forma sustentável, sem comprometer o cultivo de alimentos ou derrubar florestas”, explicou.

Ele acrescentou que 90% da energia elétrica do Brasil é limpa e há potencial para produzir o hidrogênio verde mais barato do mundo.  

Lula também citou a possibilidade de maior exploração de minérios críticos para colaborar com a descarbonização e a transformação digital. “Com apenas 30% do potencial mineral mapeado, nosso país já tem a maior reserva mundial de nióbio, a segunda de grafita e terra rara e a terceira de níquel”.

Ele disse que não vê o país como “mero exportador” dos minerais, mas deseja parcerias internacionais com transferência de tecnologia.



Fonte: Agência Brasil

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Lula chega à Alemanha para assinar parcerias comerciais e de inovação

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou, neste domingo (19), na cidade de Hannover, na Alemanha, em busca de parcerias comerciais e de inovação. Estão previstas as assinaturas de 10 acordos em diferentes áreas.

Lula foi recebido pelo chanceler alemão, Friedrich Merz, com honras de chefe de Estado ao chegar ao Palácio de Herrenhausen.

Ainda neste domingo, Lula deve se reunir, de forma privada, com o líder alemão e participar, ao lado de Merz, da cerimônia de abertura da Feira Industrial de Hannover, seguida de jantar oficial com lideranças empresariais.

O objetivo é ampliar a visibilidade internacional do Brasil, mostrar a integração do ecossistema brasileiro e reforçar o posicionamento do país como um destino de investimentos, tecnologia e negócios. 

Segundo o governo, as parcerias a serem assinadas incluem as áreas de defesa, mudanças climáticas, infraestrutura, inteligência artificial, inovações energéticas, bioeconomia, desenvolvimento sustentável, desenvolvimento de aplicativos e pesquisas nas áreas oceânicas e do cerrado brasileiro.

Reindustrialização

A ideia é consolidar parcerias estratégicas, promover a reindustrialização do Brasil e discutir temas globais urgentes, como a defesa da democracia, o combate às desigualdades e a crise climática.

Na segunda (20), Lula vai participar da Hannover Messe, que é a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo. Nesta edição, o evento homenageia o Brasil. O presidente ainda deve participar de um fórum empresarial.

Na feira, a participação brasileira conta com cerca de 2.700 metros quadrados de exposição, organizados nas áreas temáticas de transição energética, hidrogênio, digitalização, indústria avançada, economia circular e inteligência artificial. Haverá a presença de 140 empresas brasileiras e outras 300 representadas.

Estratégia

Segundo a diplomacia brasileira, a participação do presidente Lula na Feira Industrial reflete uma decisão estratégica, em sintonia com a retomada da política industrial do país.

Ainda na segunda, o presidente participa da abertura da 42ª edição do Encontro Econômico Brasil–Alemanha, que reúne empresários e autoridades dos dois países para discutir temas como inovação, sustentabilidade, geopolítica, indústria de defesa e inteligência artificial.

Lula também participará da sessão plenária da 3ª Reunião de Consultas Intergovernamentais de Alto Nível entre Brasil e Alemanha, com participação de delegações ministeriais dos dois países. Está prevista também a possibilidade de visita à cidade de Wolfsburg, sede global da Volkswagen. 

Para o governo, a Alemanha se destaca como um dos principais interlocutores do Brasil na Europa. O país europeu é hoje o principal parceiro do Brasil em cooperação técnico-financeira e mantém atuação relevante em iniciativas voltadas à agenda climática, à transição energética e ao desenvolvimento sustentável.



Fonte: Agência Brasil

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Soberania em minerais críticos permite emprego verde na América Latinacurrent-page:pager]Agência Brasil

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Os países da América Latina devem aproveitar as enormes reservas de minerais críticos e terras raras que possuem para desenvolver a própria indústria da transição energética, avaliaram lideranças latino-americanas consultadas pela Agência Brasil.  

O controle sobre os minerais críticos, fundamentais para indústrias da transição energética e da tecnologia, é um dos centros da disputa comercial travada entre China e Estados Unidos (EUA) pela liderança da economia global.


Brasília (DF), 25/03/2026 - Minerais críticos e transição energética. O ex-ministro de Minas e Energia do governo de Gustavo Petro, na Colômbia, Andrés Camacho. Foto: Lucas Alvarenga/Ineep
Brasília (DF), 25/03/2026 - Minerais críticos e transição energética. O ex-ministro de Minas e Energia do governo de Gustavo Petro, na Colômbia, Andrés Camacho. Foto: Lucas Alvarenga/Ineep

Ex-ministro de Minas e Energia da Colômbia Andrés Camacho. Foto: Lucas Alvarenga/Ineep

Os especialistas argumentam que, ao desenvolver a própria indústria, a América Latina evita repetir o papel de simples exportador de matérias-primas, fortalecendo a economia da região e ganhando poder de barganha no cenário global.

O ex-ministro de Minas e Energia do governo de Gustavo Petro, na Colômbia, Andrés Camacho, destacou que o fato de uma parcela importante desses minerais estar na América Latina permite que os países possam desenvolver as próprias indústrias, criando empregos de qualidade e reduzindo a dependência tecnológica.

“Por exemplo, o lítio, encontrado em países aqui no Sul do continente. Precisamos avançar em direção à produção, não apenas para exportar lítio, mas também para aprimorá-lo, e não apenas como mineral, mas como baterias”, destacou.

O lítio é um dos principais insumos para baterias de carros elétricos, assim como o cobre é fundamental para os painéis solares e eólicos. Estima-se que 45% do lítio e 30% do cobre estejam na América Latina, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).

A deputada pela Argentina do parlamento do Mercosul (Parlasul) Cecilia Nicolini, ex-secretária de Mudanças Climáticas do governo de Alberto Fernández (2019-2023), defendeu que os países latino-americanos não devem se limitar a exportar minerais brutos para outras nações processá-los.

“Você pode ter uma política de exportação de recursos, mas também podemos usar esses recursos para desenvolver algum tipo de tecnologia ou algum tipo de participação na cadeia de valor para ter um nível mínimo de poder de negociação [no cenário global]”, disse.


Brasília (DF), 25/03/2026 - Minerais críticos e transição energética. A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, Ticiana Alvares. Foto: Lucas Alvarenga/Ineep
Brasília (DF), 25/03/2026 - Minerais críticos e transição energética. A diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, Ticiana Alvares. Foto: Lucas Alvarenga/Ineep

Diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, Ticiana Alvares. Foto: Lucas Alvarenga/Ineep

As lideranças participaram, no Rio de Janeiro (RJ), do Seminário Internacional Energia, Integração e Soberania, realizado pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep), em parceria com a Fundação Perseu Abramo e a Fundação Friedrich Ebert Brasil.

A diretora técnica do Ineep, Ticiana Alvares, defendeu que a atual lógica do comércio global está em xeque com as guerras em curso e a disputa geopolítica entre China e EUA. Isso abriria oportunidades para a América Latina investir em indústrias regionais ligadas à transição energética.  

“Essa internalização de bens e insumos essenciais talvez não possa ser feita de forma nacional, mas faz sentido de forma regional. Por exemplo, o tema dos fertilizantes, que o Brasil tem uma dependência gigante. Temos a Argentina, que agora é abundante em gás. Temos também a Bolívia abundante em gás. O gás natural é o principal insumo para a produção de fertilizante nitrogenado”, explicou.

Para Ticiana, a crise atual incentiva os países a internalizar a produção de bens necessários para segurança energética. “Em um momento de crise, duvido que os países não queiram ter uma indústria no seu país”, completou.

Importância da América Latina nos minerais críticos

A Agência Internacional de Energia (AIE) aponta a América Latina como região chave para o mercado global de minerais críticos, com vastas reservas e um setor de mineração bem estabelecido.

“A América Central e do Sul são ricas em minerais críticos como lítio, cobre, grafite, terras raras, níquel, manganês, prata e bauxita, lideradas por países como Argentina, Bolívia, Brasil, Chile e Peru”, diz a AIE.  

A dependência dos Estados Unidos de importações desses minerais tem sido uma fonte de tensões geopolíticas, uma vez que Washington atua para garantir esses suprimentos e evitar que adversários, principalmente Rússia e China, tenham acesso a esses materiais.  

“Os EUA dependem de importações para mais da metade do lítio e mais de dois terços dos compostos e metais de terras raras que consomem”, afirma o relatório do Serviço Geológico dos Estados Unidos de 2026.

Por outro lado, a China tem um papel dominante no mercado dos minerais críticos e terras raras, tanto no campo da mineração, como principalmente no processamento e refino desses materiais, segundo relatório da Agência Internacional de Energia (AIE).

“Sua influência é ainda mais forte no refino, com uma participação de 44% no refino global de cobre, uma participação de 70-75% no processamento de lítio e cobalto e uma participação de mais de 90% no refino de elementos de terras raras e grafite de grau de bateria”, diz a AIE.

Ainda segundo a agência, o engajamento da China nesse mercado “tem sido forte na África, América Latina e Indonésia”.

Trump tenta conter China na América Latina

Um dos objetivos da política externa da Casa Branca sob Trump é conter a influência econômica chinesa no continente latino-americano, como ficou expresso na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, publicada em novembro do ano passado, reafirmando a “proeminência” de Washington sobre a América Latina.

“Negaremos a concorrentes de fora do Hemisfério a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais em nosso Hemisfério”, diz o documento oficial.

Em março deste ano, Trump firmou uma coalizão militar com 12 países latino-americanos alinhados ideologicamente, como Argentina, Paraguai, Equador e Chile. Um dos objetivos é afastar a influência de potências estrangeiras de fora do hemisfério, o que tem sido interpretado como parte da guerra comercial travada pelos EUA contra a China. 

Coalizão latino-americana sem ideologia


Brasília (DF), 25/03/2026 - Minerais críticos e transição energética. A deputada pela Argentina do parlamento do Mercosul, o Parlasul, Cecilia Nicolini, ex-secretária de Mudanças Climáticas do governo de Alberto Fernández (2019-2023). Foto: Lucas Alvarenga/Ineep
Brasília (DF), 25/03/2026 - Minerais críticos e transição energética. A deputada pela Argentina do parlamento do Mercosul, o Parlasul, Cecilia Nicolini, ex-secretária de Mudanças Climáticas do governo de Alberto Fernández (2019-2023). Foto: Lucas Alvarenga/Ineep

Deputada pela Argentina do Parlasul, Cecilia Nicolini, ex-secretária de Mudanças Climáticas do governo. Foto: Lucas Alvarenga/Ineep

A deputada do Parlasul Cecilia Nicolini defende que os países latino-americanos precisam criar coalizões baseadas em temas, como a transição energética, para que possam contornar as diferenças ideológicas entre os governos da região.

“Precisamos pensar em como formar essas coligações com outros países que não compartilham nossa ideologia, para construir essas alianças com base em questões específicas, principalmente na transição energética. Porque essa integração exige infraestrutura, exige políticas que vão além dos governos atuais”, destacou Cecilia.

Para o ex-ministro de Minas e Energia colombiano Andrés Camacho, caso não consiga desenvolver uma indústria própria, a região ficará dependente da importação dos equipamentos da transição energética.

“A produção de painéis solares provavelmente será difícil, mas se tivermos recursos como esses minerais, poderemos começar a criar cadeias de produção. Teremos que começar a desenvolver nossas próprias adaptações para veículos elétricos e tomar medidas para garantir que não nos tornemos completamente dependentes dessas tecnologias”, destacou.

A diretora técnica do Ineep Ticiana Alvares pondera, por outro lado, que os países que detêm os minerais críticos exigidos por EUA e China precisam conquistar, por meio de negociações, as condições que permitam a transferência de tecnologia para a região.

“A gente tem as matérias-primas dessas indústrias que são as indústrias energéticas do futuro. Não só energética, no caso dos minerais críticos, da inteligência artificial e tudo mais. A China não irá transferir tecnologia por vontade própria. A gente tem que dizer o que a gente quer. A China mesmo fez isso. Foi assim que a China foi avançando nas cadeias de valor”, finalizou.

Segurança nacional

O presidente do Brasil,  Luiz Inácio Lula da Silva, tem defendido que os países da América Latina tenham acesso a todas as etapas das cadeias de valor dos minerais críticos existentes na região. 

Na última sexta-feira (17), durante assinatura de acordos com a Espanha, Lula lembrou que a América Latina já já deixou passar outros ciclos econômicos como do ouro, da prata, do minério de ferro e da madeira, sem tirar proveito disso.

“Nós não podemos agora permitir que a riqueza que a natureza nos deu não permita que a gente fique rico”. 

Segundo ele, o Brasil está disposto a fazer acordo com todos os países sobre o tema. 

“E o processo de transformação se dará dentro do Brasil. Não vamos repetir com os minerais críticos e com as terras raras o que aconteceu com o minério de ferro, com a bauxita. Vamos agora assumir a responsabilidade. Isso é uma questão de segurança nacional para nós”, disse o presidente.

 

*O repórter viajou a convite do Ineep para o Seminário Internacional Energia, Integração e Soberania



Fonte: Agência Brasil

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